Depois de lerem a obra e terem ficado convencidos que ali tinham material cinematográfico, os produtores Edward R. Pressman e Chris Hanley chamaram a realizadora Mary Harron para assumir o leme da realização, depois de Hanley ver um pequeno filme seu chamado I Shot Andy Warhol (1996), e ter ficado impressionado com a acuidade na recriação do ambiente de época dos anos 60. Para o papel principal de Patrick Bateman, foi escolhido o britânico Christian Bale, que se tinha notabilizado no Império do Sol (1987) de Steven Spielberg. Nascia assim, em 2000, American Psycho em filme.
Patrick Bateman é um bem sucedido vice-presidente de um poderoso banco. Embora Bateman tenha uma vida onde nada lhe falta, ele não está totalmente satisfeito. Com uma namorada deslumbrante (uma improvável Reese Witherspoon), a sua secretária pessoal (uma ainda mais improvável Chloë Sevigny) que gosta dele secretamente e o seu grupo de amigos e colegas de profissão, Patrick almeja algo mais. Quando olha para o seu colega Paul Allen (Jared Leto) e nota que ele é mais bem sucedido em praticamente tudo, Patrick não aguenta e decide matá-lo. Começa assim uma espiral de violência que vai levar Bateman ao limite da loucura.
American Psycho é, acima de tudo, uma obra inteligente. É uma crítica ao mundo empresarial e aos altos executivos que usam e abusam do seu poder, aproveitando-se dos demais elementos da sociedade e até dos próprios colegas. Os assassinatos ao longo do filme podem ter uma mera carga simbólica, representando chacinas sobretudo morais, infligidas pelo abuso de poder.
A nível de realização, o filme está exemplar, com planos apropriados a cada cena, reforçando muitas vezes a face do protagonista, transmitindo ao expectador aquilo porque Bateman está a passar e as suas reacções frívolas.
Com uma forte aposta na música de época, para além de vermos o filme, podemos também retirar prazer ao ouvi-lo, ao som de nomes como New Order, Phil Collins, Robert Palmer, Whitney Houston, Katrina & The Waves e, claro, o metalinguísco "Hip to be Square" de Huey Lewis and The News.
Carregado de simbolismos, o filme centra-se na obtenção de estatuto, sobressair entre os seus pares e na manutenção das aparências para tentar pertencer ao meio. Numa cena que é tanto simbólica como hilariante, Patrick tenta impressionar os seus colegas com o seu novo cartão de apresentação. No entanto, quando descobre que o cartão de cada um dos seus colegas é melhor que o seu, Patrick passa de orgulhoso a rebaixado e olha para o melhor cartão, o de Paul Allen, como se fosse uma mulher extremamente atraente que ele nunca poderia ter. O filme tem conteúdo sexual, mas de modo inteligente, as cenas são tudo menos sensuais. Reforça-se sobretudo o egocentrismo da personagem nas suas "performances" e o modo como Bateman abusa das mulheres em causa.
American Psycho, considerado por alguns como um slasher movie, é muito mais que isso, é uma crítica eficaz com divertimento mordaz.
Ainda que não tenha tido muita notabilidade quando estreou, o filme veio ganhando estatuto ao longo dos anos e hoje é considerado um filme de culto com um bom número de seguidores.
Com um elenco notável que inclui também Willem Defoe, Justin Theroux, Josh Lucas, Bill Sage e Matt Ross, American Psycho é uma obra exemplar, ainda que modesta em financiamento (a maoria do orçamento foi utilizado no licenciamento das músicas) e com um final surpreendente, aberto a mais que uma interpretação. É cinema no seu melhor estado!


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