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terça-feira, 17 de setembro de 2013

O Terceiro Passo e a Essência do Cinema


O Terceiro Passo (The Prestige) é um filme de 2006, realizado por aquele que já foi apelidado de Stanley Kubrick do século XXI, Christopher Nolan. “Entalado” entre os dois primeiros filmes da saga Batman do realizador britânico, a obra passou um pouco despercebida, embora tenha obtido o reconhecimento da crítica e tenha recebido nomeações para os Óscar de melhor direcção artística e fotografia. Baseado no livro de Christopher Priest, o filme, embora relativamente modesto em termos de produção comparativamente com as mais recentes obras de Nolan é, não só um dos seus melhores filmes (embora se possa afirmar isso de uma boa parte dos seus trabalhos enquanto realizador), como é também um filme metalinguístico que resume uma das características cinematográficas por excelência: a capacidade de surpreender o espectador.

O filme conta a história de dois amigos, Robert Angier (Hugh Jackman) e Alfred Borden (Christian Bale), ajudantes de um mágico profissional, que entram em confronto quando um dos truques corre mal e a mulher de Robert morre devido a um erro cometido por Alfred. Após este incidente, os dois ex-amigos seguem caminhos separados e tornam-se mágicos por conta própria. Angier conta com Cutter (fabuloso Michael Cane), um engenheiro que é responsável por lhe desenvolver os dispositivos para os truques. Borden entretanto arranja uma família e um truque que, embora não tão vistoso, consegue maravilhar o próprio Angier. Tudo isto serve de motor para a obsessão que Robert desenvolve para se vingar de Alfred e tentar descobrir o segredo do seu truque.


Enquanto filme a obra é notável. Com uma história de obsessão que leva Angier ao isolamento, O Terceiro Passo conta com um elenco sólido que inclui também Scarlett Johansson, Rebeca Hall, Andy Serkis e David Bowie no papel do rival de Edison, Nicola Tesla. O espectador compreende o que leva Angier a querer-se vingar de Borden, mas depressa percebe que essa vontade, inicialmente movida pela morte da sua mulher, gradulamente vai sendo substituida por uma obsessão egocêntrica centralizada na ruina de Borden e na busca do segredo do seu grande truque aparentemente fisicamente impossível de concretizar. Mesmo com algumas falhas no argumento (a máquina de Tesla, o soterramento aparentemente inofensivo de uma personagem), o filme não perde a sua força.


Mas é no seu mote ilusionista que reside o grande trunfo de O Terceiro Passo. A obra é tanto um película acerca de magia como o é acerca do próprio cinema. Durante o filme, através da narração de Cutter, é-nos dado a conhecer os três passos de um bom truque de magia: primeiro a apresentação do truque, depois a ilusão propriamente dita. No final, para que o truque deixe o público maravilhado, é necessário o terceiro passo, ou seja, o prestígio (daí o nome The Prestige) em que se revela ao público algo inesperado. Estes pontos servem de analogia ao cinema e ao próprio filme, com um final surpreendente. São as palavras finais de Cutter que resumem a essência do cinema: ...now you're looking for the secret. But you won't find it because of course, you're not really looking. You don't really want to work it out. You want to be fooled. E é pois assim. Tanto na magia, como no cinema, o espectador é enganado e quer saber o segredo. Mas não o quer realmente encontar, pois isso estragaria a ilusão. O espectador quer ser enganado. E este filme fá-lo de uma maneira como poucos conseguem.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

American Psycho (2000)


Bret Easton Ellis sempre foi um autor destacado... pelas melhores e piores razões. Autor de alguns dos livros mais polémicos que a literatura norte-americana já conheceu, publicou em 1985 a sua primeira obra, Less Than Zero, seguido de The Rules of Attraction (1987). Em 1991 surgiria com a sua obra mais conhecida, American Psycho, que abordava o mundo corporativo e executivo da segunda metade dos anos 80, com muito sangue pelo meio.

Depois de lerem a obra e terem ficado convencidos que ali tinham material cinematográfico, os produtores Edward R. Pressman e Chris Hanley chamaram a realizadora Mary Harron para assumir o leme da realização, depois de Hanley ver um pequeno filme seu chamado I Shot Andy Warhol (1996), e ter ficado impressionado com a acuidade na recriação do ambiente de época dos anos 60. Para o papel principal de Patrick Bateman, foi escolhido o britânico Christian Bale, que se tinha notabilizado no Império do Sol (1987) de Steven Spielberg. Nascia assim, em 2000, American Psycho em filme.



Patrick Bateman é um bem sucedido vice-presidente de um poderoso banco. Embora Bateman tenha uma vida onde nada lhe falta, ele não está totalmente satisfeito. Com uma namorada deslumbrante (uma improvável Reese Witherspoon), a sua secretária pessoal (uma ainda mais improvável Chloë Sevigny) que gosta dele secretamente e o seu grupo de amigos e colegas de profissão, Patrick almeja algo mais. Quando olha para o seu colega Paul Allen (Jared Leto) e nota que ele é mais bem sucedido em praticamente tudo, Patrick não aguenta e decide matá-lo. Começa assim uma espiral de violência que vai levar Bateman ao limite da loucura.




American Psycho é, acima de tudo, uma obra inteligente. É uma crítica ao mundo empresarial e aos altos executivos que usam e abusam do seu poder, aproveitando-se dos demais elementos da sociedade e até dos próprios colegas. Os assassinatos ao longo do filme podem ter uma mera carga simbólica, representando chacinas sobretudo morais, infligidas pelo abuso de poder.

A nível de realização, o filme está exemplar, com planos apropriados a cada cena, reforçando muitas vezes a face do protagonista, transmitindo ao expectador aquilo porque Bateman está a passar e as suas reacções frívolas.
Com uma forte aposta na música de época, para além de vermos o filme, podemos também retirar prazer ao ouvi-lo, ao som de nomes como New Order, Phil Collins, Robert Palmer, Whitney Houston, Katrina & The Waves e, claro, o metalinguísco "Hip to be Square" de Huey Lewis and The News.




Carregado de simbolismos, o filme centra-se na obtenção de estatuto, sobressair entre os seus pares e na manutenção das aparências para tentar pertencer ao meio. Numa cena que é tanto simbólica como hilariante, Patrick tenta impressionar os seus colegas com o seu novo cartão de apresentação. No entanto, quando descobre que o cartão de cada um dos seus colegas é melhor que o seu, Patrick passa de orgulhoso a rebaixado e olha para o melhor cartão, o de Paul Allen, como se fosse uma mulher extremamente atraente que ele nunca poderia ter. O filme tem conteúdo sexual, mas de modo inteligente, as cenas são tudo menos sensuais. Reforça-se sobretudo o egocentrismo da personagem nas suas "performances" e o modo como Bateman abusa das mulheres em causa.
American Psycho, considerado por alguns como um slasher movie, é muito mais que isso, é uma crítica eficaz com divertimento mordaz.

Ainda que não tenha tido muita notabilidade quando estreou, o filme veio ganhando estatuto ao longo dos anos e hoje é considerado um filme de culto com um bom número de seguidores.
Com um elenco notável que inclui também Willem Defoe, Justin Theroux, Josh Lucas, Bill Sage e Matt Ross, American Psycho é uma obra exemplar, ainda que modesta em financiamento (a maoria do orçamento foi utilizado no licenciamento das músicas) e com um final surpreendente, aberto a mais que uma interpretação. É cinema no seu melhor estado!