domingo, 1 de janeiro de 2017

A Passagem da Noite - A Inocência Perdida em Português


É difícil esclarecer ao certo o paradigma do cinema Português. Geralmente afastado do seu próprio público, as razões para este distanciamento não são claras, embora haja várias teorias do que poderia ser. Independentemente deste afastamento, uma coisa é certa: o cinema Português tem qualidade e está cheio de pérolas que poucos conhecem. A Passagem da Noite é uma delas.

Realizado e escrito por Luís Filipe Rocha, em 2003 e produzido por Paulo Branco, A Passagem... traz-nos a história de Mariana (uma magnifica Leonor Seixas), uma jovem de 17 anos que é violada por um drogado e, em consequência disso, fica grávida. A vida de Mariana muda por completo: afasta-se do namorado, dos pais, ao mesmo tempo que tenta lidar com a gravidez e com o bebé indesejado. Nesta tormenta, aparece um inspector da Judiciária (João Ricardo) que, ao mesmo tempo que investiga um caso de homicídio no qual o violador poderá estar envolvido, vai ajudar a jovem neste caminho.


A Passagem da Noite é um filme que é muito mais que uma história trágica. É a perda de inocência de uma pessoa e a sua passagem forçada e prematura à idade adulta. É o isolamento de uma miúda incutida no espectador. O filme começa e em poucos minutos parte-se para o mote principal. A rapariga é violada, off-screen, e o espectador só vê a imagem de um fígado a ser cortado por uma faca. É poderoso e eficaz. A partir daqui é uma descida ao isolamento da jovem e nós senti-mo-lo também. Mariana não conta a ninguém o que aconteceu, nem mesmo à Polícia, recusando identificar o violador. Acaba com o namorado, sem uma razão óbvia (para ele), ao mesmo tempo que é rodeada pelos pais que julgam a sociedade a torto e a direito. Para além disso, tenta ao mesmo tempo esconder a gravidez e abortar (sem sucesso), pois o bebé é uma recordação do que aconteceu.

Não é fácil abordar um tema tão delicado, principalmente quando o sujeito-alvo é uma moça de 17 anos, mas este filme fá-lo de forma sensível e convida o espectador a participar na dor da rapariga, como se fossemos nós os seus únicos confidentes.


Embora com alguns "buracos" no argumento (como é que uma pessoa consegue esconder uma gravidez de TODOS, até dos próprios pais, mesmo vivendo com eles?) e com uma relação entre o inspector e a rapariga que é bastante inadequada (coughstalkercough), A Passagem da Noite é cinema português que vale a pena ver e que poucos conhecem. O filme conta ainda com Maria Rueff, Ana Bustorff e um pequeno cameo de Virgílio Castelo e Rogério Samora!

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